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Dia do Filósofo: o ofício de pensar e a urgência de ensinar

Neste 16 de agosto, data em que se celebra o Dia do Filósofo no Brasil, impõe-se à comunidade filosófica e educacional um exercício de autorreflexão: a quem, afinal, se destina esta homenagem? Durante décadas, a tradição acadêmica e universitária brasileira operou sob uma cisão artificial e hierarquizante. De um lado, resguardou-se a figura do “filósofo pesquisador”, dedicado à exegese historiográfica e à produção de gabinete; de outro, relegou-se o professor de Filosofia da Educação Básica à condição subalterna de mero transmissor ou aplicador técnico de ideias e conceitos já produzidos.

Essa dicotomia, além de politicamente nefasta para a educação pública, é filosoficamente insustentável. Ensinar filosofia nunca foi, nem jamais poderá ser, uma mera transposição didática terceirizada ou a repetição acrítica de manuais enciclopédicos. A prática docente em filosofia é, em sua própria raiz ontológica e epistemológica, um ato genuinamente filosófico. Quem ensina filosofia problematiza as condições de emergência do pensamento, cria conceitos em diálogo com a realidade e instaura a experiência viva da dúvida e da argumentação. Portanto, todo professor e toda professora de filosofia é, por direito e por ofício, filósofo e filósofa.

A Desconstrução de uma Falsa Fronteira

A história da consolidação acadêmica da filosofia no país expõe os limites de uma formação docente que frequentemente separou o conteúdo conceitual de sua difusão formativa. Contudo, as últimas três décadas demonstraram que a reflexão sobre o ensino não é um apêndice exterior, mas um problema incontornável da própria tradição do pensamento.

Desde as mobilizações que culminaram na criação do Grupo de Trabalho Filosofar e Ensinar a Filosofar junto à ANPOF em 2006, sob o impulso seminal de pensadores como Walter Kohan, Alejandro Cerletti, Silvio Gallo e Elisete Tomazetti, construiu-se no Brasil uma verdadeira “virada discursivo-filosófica” (Rodrigues; Gelamo, 2021). Essa virada demonstrou que o ato de ensinar a pensar coloca em jogo as perguntas mais radicais da metafilosofia: o que significa pensar? Quem tem o direito de pensar? Em que condições o pensamento se desestabiliza e produz o novo?

Como pontuou Sílvio Gallo (2015), foi necessário promover uma fecunda “contaminação” do meio universitário para que a comunidade filosófica compreendesse a urgência de pensar filosoficamente o seu próprio ensino. Mais recentemente, o debate avançou para a consolidação da “cidadania-filosófica” do campo (Rodrigues; Velasco; Gelamo, 2024), evidenciando que a Filosofia do Ensino de Filosofia constitui uma área de pesquisa autônoma, cuja especificidade não se confunde com a didática geral ou com a pedagogia instrumental (Moreira, 2025).

A Sala de Aula como Laboratório do Pensamento e Espaço de Resistência

Quando um professor ou uma professora entra em sala de aula na escola básica, o que ali acontece não é o consumo passivo de um repertório canônico. A sala de aula é um laboratório vivo. Ao colocar Platão, Espinosa, Kant, Foucault ou o pensamento decolonial em confronto com os dilemas concretos da juventude — a aceleração algorítmica, o avanço do negacionismo, a precarização das relações humanas e a manipulação dos afetos —, o docente opera uma reconstrução conceitual permanente.

Trata-se de reivindicar a maiêutica socrática em sua potência original: o filosofar como acontecimento discursivo e comunitário. O professor que estimula a discordância fundamentada, que desmonta falácias e que desacelera a voracidade do tempo presente para instaurar a reflexão atenta está, em tempo real, produzindo filosofia. Tratar esse profissional como “não-filósofo” é uma miopia epistêmica que empobrece a universidade e desvaloriza a escola.

A maturidade desse entendimento não é apenas teórica, mas empírica. O levantamento sistemático reunido no Dossiê O Ensino de Filosofia como área de pesquisa (1997-2025), produzido pela ABEFil em parceria com o GT da ANPOF, atesta a existência de mais de 1.500 artigos e capítulos, centenas de dissertações e teses (com protagonismo de programas como o PROF-FILO e o PPFEN/CEFET-RJ), além de periódicos consolidados como a REFilo e a Revista do NESEF. Toda essa produção nasce da efervescência reflexiva provocada pela prática docente.

Compromisso Político e Institucional da ABEFil

Afirmar que ensinar filosofia é filosofar se constitui também um imperativo de luta política. Em momentos de retrocessos curriculares, reformas excludentes e tentativas de esvaziamento das ciências humanas, a defesa da presença mandatória da Filosofia na Educação Básica — pauta central da atuação da ABEFil — é indissociável da valorização do professor como intelectual transformador.

Neste Dia do Filósofo, a Associação Brasileira de Ensino de Filosofia celebra e homenageia todos os docentes que, no chão da escola pública e nas universidades, mantêm acesa a recusa à servidão voluntária e o compromisso com a autonomia do pensamento. Ensinar a filosofar é produzir filosofia no mundo. A todos os professores e professoras de filosofia: parabéns pelo seu dia, pelo seu ofício e pela sua coragem reflexiva.

 

 

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