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O PIBID vai à ANPOF: A Pesquisa em Ensino de Filosofia que Nasce na Escola

A tradição universitária brasileira herdou, em grande medida, uma divisão estamental do trabalho intelectual. De um lado, resguardou-se à pós-graduação e aos centros de pesquisa o monopólio da produção conceitual; de outro, reservou-se à Educação Básica e às licenciaturas o papel subalterno de receptáculos de teorias e metodologias elaboradas no “Castelo Acadêmico”, cabendo ao professor de escola a simples “aplicação” ou “simplificação” dos saberes consolidados.

A trajetória da Associação Brasileira de Ensino de Filosofia (ABEFil) constitui-se precisamente na recusa dessa assimetria. Defendemos que o Ensino de Filosofia não é uma atividade secundária de repetição didática, mas um campo de pesquisa acadêmica próprio, dotado de problemas epistemológicos, metodológicos e políticos específicos. Dessa forma, a sala de aula do Ensino Médio se constitui um espaço vivo de produção de conhecimento filosófico.

É exatamente nessa confluência entre investigação teórica, criação pedagógica e compromisso político que se posiciona a experiência dos licenciandos Bernardo Santos, Karen Cardim e Tamara da Costa Rodrigues, estudantes da Licenciatura em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), sob a supervisão da Profa. Dra. Marcela Botelho Tavares, docente do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

O PIBID e a Formação Docente enquanto Investigação Científica

O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) cumpre uma função insubstituível na formação de professores. Ele desloca o estudante universitário da condição de espectador passivo das teorias pedagógicas para o papel de investigador da realidade escolar.

Ao atuarem em espaços diversos como o IFRJ Campus Duque de Caxias, o CEFET/RJ e o CAP-UERJ, os pibidianos do núcleo de Filosofia da UFRJ não se limitaram a cumprir horas de regência. Enfrentaram o desafio central da transposição didática: como problematizar conceitos filosóficos densos e rigorosos com adolescentes do Ensino Médio sem recorrer ao barateamento do conteúdo?

A resposta construída pelo grupo foi o desenvolvimento de tecnologias sociais de ensino fundamentadas na ludicidade crítica. Foram idealizados e aplicados jogos originais que atuam como disparadores da reflexão:

  • Caça-palavras SOPHIA / Caça-palavras das Filósofas: focado no resgate e no mapeamento de pensadoras historicamente apagadas;
  • BINGO, LOGO EXISTO!: jogo que revisita autores e conceitos da Filosofia Antiga;
  • MNEMOSINE: jogo da memória dedicado à recuperação das filósofas da Antiguidade;
  • FILOSTRATO: jogo de cartas que problematiza temas centrais da tradição filosófica por meio da interpretação de palavras e recursos simbólicos visuais;
  • Quiz Lélia Gonzalez: instrumento de mediação voltado ao pensamento social brasileiro, à filosofia latino-americana e às relações de gênero e raça.

Essa produção — testada na XIV Semana de Ciência e Tecnologia (SEMACIT) em Duque de Caxias e aplicada no cotidiano das turmas do Ensino Médio — demonstra que o licenciando em Filosofia, ao pesquisar o seu próprio fazer pedagógico, produz conhecimento científico autêntico. A transposição didática mediada pelo jogo não é mera recreação; é reflexão sobre a linguagem, sobre a recepção do conceito e sobre a democratização do acesso ao saber.

Decifrar o Cânone: O Resgate do Pensamento das Mulheres

A escolha temática do grupo atinge o coração da crítica historiográfica da filosofia. Como lembra a professora Marcela Tavares ao citar o enigma da grega Cleobulina de Lindos (“Eu vi um homem roubar e enganar violentamente, e fazer isso com violência era o mais justo”), a história tradicional do pensamento ocidental foi construída mediante o silenciamento sistemático das mulheres.

Cleobulina, cujos fragmentos poéticos antecipavam debates complexos sobre a justiça contextual e a ética muito antes de sua sistematização pelos manuais, foi apagada do cânone escolar, assim como dezenas de outras filósofas ao longo dos séculos.

Quando os estudantes do PIBID levam para a escola pública o Quiz Lélia Gonzalez ou o jogo Mnemosine, eles não estão apenas “inovando na metodologia”: estão realizando uma intervenção curricular descolonizadora e antirracista. Ensinam aos estudantes da Educação Básica que a Filosofia é um patrimônio plural da humanidade, tecido por vozes femininas, negras e periféricas que a tradição eurocêntrica e patriarcal tentou invisibilizar.

A Asfixia do Fomento e a Relação de Classe no Acesso à Pós-Graduação

O reconhecimento acadêmico da pesquisa desenvolvida pelo grupo veio com a aprovação do minicurso “ENIGMA: Estratégias e Práticas de Jogos Filosóficos para o Ensino Médio” para a programação oficial do XXI Encontro Nacional da ANPOF, que ocorrerá em Florianópolis/SC no mês de novembro de 2026.

A Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF) representa o fórum científico mais alto e influente da área no país. A presença do PIBID e da Anpof Educação Básica nesse espaço é uma vitória política crucial para a afirmação do Ensino de Filosofia como campo de pesquisa.

Entretanto, a aprovação do trabalho escancara a contradição estrutural das políticas de fomento no Brasil. Enquanto os agências de fomento preveem rubricas de passagens e diárias para pesquisadores doutores e docentes da pós-graduação, os estudantes da graduação e da licenciatura permanecem desassistidos. Nega-se aos futuros professores da escola pública o direito elementar de circularem nos congressos onde a sua própria profissão é debatida.

Esse gargalo orçamentário gera uma elitização velada do campo acadêmico: apenas os graduandos com recursos financeiros familiares conseguem custear viagens, construir currículo e frequentar fóruns nacionais. Para os filhos da classe trabalhadora que povoam as licenciaturas públicas, a participação num congresso nacional torna-se um luxo inalcançável — a menos que a comunidade se organize coletivamente.

Mobilização Coletiva: Como Apoiar a Campanha

A ABEFil assume publicamente o apoio à campanha de financiamento coletivo organizada por Bernardo, Karen e Tamara. Financiar a ida desses licenciandos ao XXI Encontro da ANPOF é um ato concreto de resistência política, de fortalecimento do PIBID e de afirmação da pesquisa em Ensino de Filosofia.

A meta total de R$ 9.000,00 destina-se exclusivamente ao custeio de passagens aéreas, hospedagem e alimentação dos três estudantes durante o evento em Florianópolis.

📊 Panorama Atual da Campanha:

  • Meta Total: R$ 9.000,00
  • Valor Arrecadado: R$ 5.050,00 (56% da meta atingida por 71 doadores)
  • Valor Faltante: R$ 3.950,00
  • Prazo Limite para Emissão de Passagens: Setembro de 2026

📌 Canais para Doação e Divulgação:

Assista ao vídeo que a Profa. Marcela preparou para divulgar e que publicamos em nosso Instagram:

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