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Dois Anos de ABEFil: A Conquista da Cidadania Filosófica, o Chão da Escola e a Defesa da Democracia

Neste 2 de outubro de 2026, a Associação Brasileira de Ensino de Filosofia (ABEFil) completa dois anos de existência jurídica e institucional. Trata-se de uma data que carrega a densidade de uma caminhada forjada no calor dos embates públicos, na resistência cotidiana do chão da escola e na consolidação acadêmica de um campo de saber. Quem acompanha a história da nossa fundação sabe perfeitamente que a nossa trajetória não se iniciou em 2024: nascemos de um sonho coletivo gestado há mais de duas décadas por sucessivas gerações de professoras e professores pesquisadores/as do Ensino de Filosofia.

Nossa gênese está enraizada na produção rigorosa de grupos de pesquisa, dissertações, teses e redes de investigação científica que demonstraram, com dados e maturidade teórica, a vitalidade do nosso campo. Mas nascemos, sobretudo, do encontro de “Experiências de (r)existência”, marcadas, indelevelmente, pela militância política, pela recusa da apatia e pelo compromisso inegociável com a escola pública. O caráter coletivo, colaborativo, democrático, laico e plural está entalhado em nosso DNA.

✊ Duas Décadas de Luta, Dois Anos de Institucionalidade Coletiva

A fundação da ABEFil representa um marco divisor: a passagem de uma mobilização dispersa para a organização unificada da nossa comunidade. Existimos para romper a fratura histórica entre a produção universitária e a sala de aula da Educação Básica, afirmando a docência escolar como espaço de pensamento autônomo e criação conceitual.

A Conquista da Cidadania Filosófica: O Ensino como Problema da Filosofia

Compreender o sentido histórico da ABEFil exige resgatar o significado rigoroso de uma das principais categorias construídas pela nossa tradição recente: a reivindicação da cidadania filosófica para o Ensino de Filosofia.

Historicamente, a universidade brasileira operou uma cisão artificial e danosa. De um lado, cultivou-se uma formação teórica restrita quase que exclusivamente à exegese historiográfica; de outro, relegaram-se as questões relativas à transmissão, à mediação didática e à apropriação do saber ao plano de meros instrumentos técnicos e exteriores, frequentemente terceirizados às faculdades de Educação. Por décadas, a investigação sobre o Ensino de Eilosofia sobreviveu nas frestas institucionais — sem o devido reconhecimento nos programas acadêmicos de pós-graduação em Filosofia, sem espaço próprio nos editais de fomento e ausente na codificação formal da Árvore do Conhecimento da CAPES e do CNPq.

“A ABEFil nasce para acolher os múltiplos modos de ser docente de Filosofia no Brasil — do Ensino Fundamental à Pós-Graduação —, rompendo o isolamento de quem está no chão da sala de aula e afirmando que pensar o ensino não é uma aplicação técnica secundária, mas uma dimensão incontornável do próprio ato de filosofar, com força política para transformar a realidade da escola pública.”

(Patrícia Del Nero Velasco em entrevista concedida à ANPOF, out. 2024)

A conquista da cidadania filosófica traduz exatamente a superação dessa marginalidade epistemológica. Trata-se da afirmação teórica e institucional de que pensar a transmissão, a experiência formativa e o diálogo conceitual em sala de aula é, em si mesmo, um problema legitimamente filosófico. O ato de ensinar a filosofar pertence ao escopo próprio da tradição filosófica. Não somos executores/as mecânicos/as de transposições concebidas por terceiros/as: a Filosofia do Ensino de Filosofia constitui um campo de investigação autônomo, dotado de referenciais, metodologias e estatuto epistemológico próprio.

Essa cidadania plena emancipa a figura docente: o/a professor/a da Educação Básica deixa de ser encarado/a como consumidor/a passivo/a de teorias geradas em gabinetes para ser reconhecido/a como filósofo/a pesquisador/a-professor/a. É no chão vivo da escola, diante das juventudes da rede pública, dos/as trabalhadores/as do noturno e dos desafios concretos da realidade social, que a aporia ganha corpo e que a reflexão filosófica se reconecta com sua dimensão originária.

A Trincheira Democrática: Ameaças Autoritárias e Resistência Política

Celebrar este aniversário exige uma consciência desperta sobre a conjuntura em que atuamos. O Brasil atravessa um tempo de contínua instabilidade democrática, no qual a alternância de cosmovisões no poder de Estado mantém sempre à espreita forças autoritárias, obscurantistas e antidemocráticas, dispostas a desestabilizar as liberdades públicas e desmantelar a educação reflexiva.

A memória da nossa categoria não é curta. Sabemos que, nos ciclos autoritários da nossa história, a Filosofia foi sistematicamente eleita como alvo prioritário a ser extirpado ou silenciado. Foi assim durante a ditadura militar com o banimento da disciplina e a imposição da censura moralista da “Educação Moral e Cívica” e da “OSPB”; foi assim nos desdobramentos regressivos da Reforma do Ensino Médio de 2017 (Lei nº 13.415/2017), que tentou converter direitos formativos essenciais em arranjos fragmentados e precarizantes.

Diante da permanente ameaça do autoritarismo e da desinformação em massa, o ensino de Filosofia é mais do que um conteúdo escolar: é uma condição indispensável da cidadania republicana. Onde a Filosofia está presente com tempo pedagógico digno e rigor conceitual, os/as estudantes aprendem a desnaturalizar as opressões, a recusar o pensamento tutelado, a exercitar a dúvida metódica e a reivindicar o direito de participar ativamente da vida democrática. Uma sociedade que ataca o ensino de filosofia é uma sociedade que pavimenta o caminho para a servidão voluntária.

Dois Anos de Ações: Defesa da Carreira, dos Currículos e da Soberania

Neste biênio inaugural, a ABEFil transformou seus princípios em intervenções práticas contundentes em defesa da nossa comunidade:

  • Entrega Histórica do Dossiê no Encontro com a FISP: no Encontro com a FISP (Fédération Internationale des Sociétés de Philosophie) realizado em Salvador, em 26 de novembro de 2025, a diretoria da ABEFil e a coordenação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da ANPOF realizaram a entrega formal do Dossiê “O Ensino de Filosofia como área de pesquisa (1997-2025)” à presidência da ANPOF e aos/às coordenadores/as de área da CAPES e do CNPq, fundamentando com rigor empírico a solicitação de inclusão da subárea “Filosofia do Ensino de Filosofia” na Árvore do Conhecimento;
  • Combate à Polivalência e Defesa da Formação Específica: atuamos com rigor técnico e político na impugnação de editais que tentam descaracterizar a docência criando vagas genéricas de “Humanidades”, como demonstramos na ação conjunta com ABECS, ANPOF, APROFFESP e SINASEFE-SP contra o Edital nº 183/2026 do IFSP. Exigimos: vaga de Filosofia é para quem tem Licenciatura em Filosofia!
  • Garantia de Direitos e Circulação Científica: cobramos das Secretarias Estaduais de Educação o cumprimento do Art. 67 da LDB, assegurando a dispensa de ponto remunerada para os/as docentes da Educação Básica apresentarem suas pesquisas nos grandes encontros acadêmicos, como no XXI Encontro Nacional da ANPOF e na Anpof Educação Básica;
  • Soberania Tecnológica e Formação Continuada: construímos nosso próprio Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA ABEFil), baseado em software livre (Moodle) e fundamentado na Metodologia Intera da UFABC, garantindo formação continuada pública e gratuita contra a colonização das plataformas comerciais e o extrativismo de dados;
  • Disputa Legislativa e Curricular: participamos ativamente da resistência ao PL nº 4.088/2023 e seguimos mobilizados/as em torno do PL nº 1.466/2026 no Senado Federal, defendendo duas horas-aula semanais de Filosofia e Sociologia em todas as séries do Ensino Médio, além da ampliação desses componentes para o Ensino Fundamental II.

A Força de Nossos/as 200 Associados/as: Uma Rede Nacional em Movimento

É com enorme orgulho que cruzamos a linha desses dois anos celebrando a marca histórica de 200 associadas e associados ativos/as em nossa entidade.

Essa marca demonstra que a ABEFil não é um projeto regionalizado ou restrito aos grandes centros. Estamos organizados/as em todas as cinco macrorregiões do país, liderados/as pela impressionante força do Nordeste (38,5%) e do Sudeste (35,0%), articulados/as à presença combativa dos/as companheiros/as do Sul (13,0%), do Centro-Oeste (7,5%) e do Norte (6,0%).

O perfil de nossa base expressa com fidelidade o projeto que nos deu origem: atingimos um equilíbrio quase perfeito entre professores/as da Educação Básica pública e privada (38,0%) e professores/as do Ensino Superior e da Rede Federal EBTT (38,5%), somados/as a pós-graduandos/as (11,5%), graduandos/as em formação (7,0%) e docentes aposentados/as (4,5%). Com quase 80% de mestres/as e doutores/as compondo nosso quadro, provamos que a ABEFil une a excelência da pesquisa filosófica com a coragem da militância que não abandona o chão da sala de aula.

Bons Ventos, ABEFil! O Futuro Se Faz em Comunidade

A cada associada, associado e entidades parceiras que caminha conosco: nosso mais afetuoso e combativo agradecimento. O primeiro biênio ergueu as fundações sólidas de uma associação que pertence a todas e todos que acreditam na dignidade da docência.

Sabemos que as tempestades políticas e pedagógicas não cessarão. Mas temos a certeza de que a ABEFil segue e seguirá forte, plural e altiva na defesa da Filosofia, de seus/suas professores/as e do direito irrenunciável dos/as estudantes ao pensamento emancipador. Que venham os próximos biênios!

Em defesa do Ensino de Filosofia e da Cidadania Filosófica!
Em defesa da Escola Pública e da Dignidade Docente!
Saúde e felicidade a todas e todos que constroem a ABEFil!

São Paulo, 02 de outubro de 2026.

Patrícia Del Nero Velasco
Presidente da ABEFil

Diretoria Executiva da ABEFil
Associação Brasileira de Ensino de Filosofia

 

Veja alguns momentos de nossa história:

Autores

  • ABEFil

    A Associação Brasileira de Ensino de Filosofia (ABEFil) é uma entidade que congrega profissionais e pesquisadores/as do Ensino de Filosofia, em todas as suas perspectivas e em todos os níveis, da educação básica à pós-graduação. Saiba mais de nossa história em "Sobre Nós" e seja nosso associado para ajudar na luta por maior carga horária do Ensino de Filosofia, mais valorização das/os professoras/es e um sistema de ensino mais inclusivo e de formação humana integral. Entre em "Associe-se", selecione seu Plano e cadastre-se para fazer parte desse sonho.

  • Patrícia Del Nero Velasco

    Possui bacharelado (1996), licenciatura (1997), mestrado (2000) e doutorado (2004) em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em 2019 realizou estágio de pós-doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UNESP, campus Marília. Atua como professora e pesquisadora da Universidade Federal do ABC (UFABC), instituição na qual coordenou o Curso de Licenciatura em Filosofia (2010-2012), o Subprojeto PIBID-Filosofia (2011-2013) e o Núcleo UFABC do PROF-FILO -Mestrado Profissional em Filosofia (2015-2018; 2020), foi vice coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (2023-2025), bem como representante do Curso de Licenciatura em Filosofia junto ao Comitê Gestor Institucional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais do Magistério de Educação Básica da UFABC (COMFOR-UFABC) (2014-2016) e membro do Comitê Gestor Nacional do PROF-FILO (2018-2020). Desde 2013 é membro do Núcleo Docente Estruturante do curso de Licenciatura em Filosofia, o qual atualmente preside (03/2024-02/2026); no biênio 2022-2024 é representante docente do Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO). Lidera o grupo do CNPq Laboratório de Pesquisa e Ensino de Filosofia (LaPEFil), atuando nas linhas Fundamentos do Ensino de Filosofia e Ensino de Argumentação Lógica e Ciências. Na primeira, desenvolveu o projeto de pós doutorado sênior A constituição do ensino de filosofia como campo de conhecimento: mapeamento da área na década de 2008 a2018 (CNPq, Processo 148901/2018-2), e atualmente coordena o Projeto Universal Sobre o estatuto epistemológico do Ensino de Filosofia: uma discussão a partir dos debates e das produções do campo (Processo 407932/2024-0); na segunda, desenvolveu o projeto Sobre o lugar da argumentação lógica na Filosofia: subsídios teóricos e metodológicos para o Ensino Médio (Edital Universal - MCTI/CNPq N 14/2014, Processo 447610/2014-7). É integrante do núcleo de sustentação do grupo de trabalho da ANPOF Filosofar e Ensinar a Filosofar (o qual coordenou no biênio 2022-2024), membro dos grupos de pesquisa ELAD - Estudos de Linguagem, Argumentação e Discurso(UESC/CNPq) e ENFILO - Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Ensino de Filosofia (UNESP/CNPq), além de autora dos livros Educando para a argumentação: contribuições do ensino da lógica (Editora Autêntica) e Filosofar e Ensinar a Filosofar: registros do GT da ANPOF 2006-2018 (NEFI Edições). No biênio 2021-2022, exerceu o cargo de secretária geral da diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), entidade com a qual colaborou como secretária adjunta na gestão 2019-2020 e pela qual integrou o Comitê Diretivo da Campanha Nacional em Defesa das Ciências Humanas no currículo da Educação Básica (CNDCH). De 2023 a 2027 integra o Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Argumentação (ABA) e, desde 02 de outubro de 2024, preside a Associação Brasileira de Ensino de Filosofia (ABEFil).

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