Inicial / Notícias e Agenda / Ações ABEFil / Em 2ª reunião com o CNE, ABEFil alerta para corte de carga horária docente, cobra apoio ao PL 1.466/26 e pauta Filosofia no Fundamental e no ENEM

Em 2ª reunião com o CNE, ABEFil alerta para corte de carga horária docente, cobra apoio ao PL 1.466/26 e pauta Filosofia no Fundamental e no ENEM

Registro da reunião

Dando continuidade à interlocução aberta na semana anterior, na tarde da última sexta-feira, 11 de setembro de 2026, entidades representativas do ensino de Filosofia e Sociologia participaram da segunda reunião técnica virtual com o presidente da Comissão da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Callegari. O encontro deu prosseguimento às discussões sobre os impactos práticos e imediatos da Lei Federal nº 15.468/2026, que inseriu conteúdos de “Educação Política e Direitos da Cidadania” no artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).

A audiência contou com a presença de lideranças da Associação Brasileira de Ensino de Filosofia (ABEFil), da APROFFESP, da Aprofil-RJ, de representações de entidades coirmãs das Ciências Humanas e de integrantes do Ministério da Educação (como a SESU/DIFES). O clima da reunião foi marcado pela preocupação uníssona das representações docentes em relação à falta de balizas regulatórias claras por parte do CNE, cuja indefinição abre margem para distorções pedagógicas profundas e esvaziamento das disciplinas no cotidiano escolar.

A Intervenção da ABEFil: Precarização Docente e Evidências Empíricas do OBSEFIS

Diferente do encontro anterior, no qual várias entidades se revezaram no uso da palavra, a ABEFil assumiu a representação central do bloco docente no espaço destinado às manifestações da sociedade civil. Em uma intervenção incisiva de quase cinco minutos, o professor José Aldo Camurça de Araújo Neto (diretor da ABEFil e representante do Fórum da Rede Federal dos Professores de Filosofia dos IFs) levou à mesa do colegiado a realidade dramática vivida pelos docentes de Filosofia e Sociologia nas redes estaduais de ensino.

O representante da ABEFil enfatizou a urgência de o CNE monitorar ativamente a supressão de carga horária e a demissão velada de profissionais concursados e contratados, que enfrentam extrema insegurança quanto à atribuição de aulas e à continuidade de seus vínculos para o ano letivo de 2027. Para fundamentar a denúncia, José Aldo apresentou os dados empíricos levantados pelo Prof. Christian Lindberg (UFS e Diretor de Políticas Educacionais da ABEFil) e publicados pelo Observatório do Ensino de Filosofia de Sergipe (OBSEFIS), que diagnosticaram o recrudescimento da desidratação curricular das humanidades após a sanção da “reforma da reforma” do Ensino Médio (Lei Federal nº 14.945/2024).

Momentos da reunião virtual realizada.
PL nº 1.466/2026 e o Fim das Ambiguidades nos 30 Anos da LDB

Para barrar o ciclo de desmonte, a fala da ABEFil articulou duas reivindicações estruturantes:

  1. Apoio Institucional ao PL nº 1.466/2026: Defesa da célere tramitação e aprovação do Projeto de Lei relatado pela Deputada Maria do Rosário, que institui, por força de lei, no mínimo duas horas semanais obrigatórias de Filosofia e Sociologia nas três séries do Ensino Médio;
  2. Glossário Normativo da LDB: Cobrança de uma diretriz técnica rigorosa do CNE que estabeleça um anexo de definições e um glossário de termos conceituais para a LDB (que completa 30 anos de promulgação no final deste ano). O objetivo é extirpar expressões ambíguas e brechas redacionais como “estudos e práticas”, que secretarias estaduais historicamente utilizam para justificar a fragmentação curricular e a docência desregulamentada.
Posicionamentos do CNE: Pacto Federativo, Revisão Terminológica e BNCC

Em sua manifestação, o presidente da comissão, César Callegari, ponderou que a definição da matriz curricular e da alocação horária é matéria de autonomia federativa das redes estaduais. No entanto, o conselheiro reconheceu abertamente a existência de anacronismos e discrepâncias injustificáveis entre os estados, bem como a complexidade de um acompanhamento fiscalizatório ostensivo por parte do órgão federal.

Callegari garantiu que o CNE acompanha com atenção o debate sobre a necessária modernização e precisão terminológica da LDB. Revelou, ademais, que um dos focos centrais das discussões internas do colegiado para 2027 é o processo de atualização da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no qual a regulamentação dos novos componentes legais e das áreas do conhecimento deverá ser equacionada.

Horizontes de Luta para Outubro: Filosofia no Ensino Fundamental e Visibilidade no ENEM

O diálogo com o CNE avançou ainda na inclusão de duas pautas históricas levantadas pelos educadores:

  • Filosofia no Ensino Fundamental: Ampliação formal do direito à reflexão filosófica para os anos iniciais e finais da Educação Básica, combatendo a falsa tese de que a infância e a pré-adolescência não possuem capacidade especulativa e crítica;
  • Reconhecimento Específico nas Avaliações Externas (ENEM): Exigência de que as matrizes de referência do Exame Nacional do Ensino Médio explicitem de forma transparente as competências e habilidades próprias de Filosofia e Sociologia, superando a opacidade que dilui as disciplinas na prova de Ciências Humanas.

O próprio César Callegari estimulou os participantes a consolidarem essas proposições para a mesa oficial ampliada marcada para o mês de outubro de 2026, oportunidade em que o colegiado pleno da Câmara de Educação Básica do CNE e as entidades nacionais aprofundarão os termos da minuta regulamentadora da Lei nº 15.468/2026.

Formação Docente, Pesquisa no Chão da Escola e a Mobilização nos 30 Anos da LDB

Mais do que uma disputa técnica por alocação de horas nas matrizes curriculares, a batalha travada junto ao CNE e ao MEC toca diretamente na dignidade do ofício de educar e na valorização da formação docente. É no chão da escola que o ensino de Filosofia e de Sociologia se materializa como experiência viva de reflexão, criação conceitual e produção científica referenciada na realidade concreta das juventudes. Defender a presença dessas disciplinas, articulada a programas estruturantes de formação inicial e continuada, é assegurar que o ato pedagógico permaneça como uma práxis crítica e investigativa, imune ao reducionismo tecnicista e ao improviso de pacotes curriculares esvaziados de rigor teórico.

No momento em que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/1996) alcança o marco histórico de seus 30 anos de promulgação, o compromisso republicano com a formação humana integral e com o preparo para o exercício da cidadania ganha contornos de máxima urgência. Esse horizonte emancipador, contudo, não pode ser fruto de concessões burocráticas: ele exige a unidade consciente e mobilizada entre professoras, professores e estudantes. Somente a força conjunta da comunidade escolar é capaz de tensionar os órgãos reguladores para que as novas diretrizes não cedam à desidratação curricular. A garantia da Filosofia e da Sociologia na Educação Básica é condição indispensável para que a cidadania política proclamada em lei se concretize, efetivamente, na autonomia e no pensamento crítico das futuras gerações.

A sequência de reuniões conquistada nas últimas semanas confirma o acerto da unidade de ação entre as entidades de representação docente e a pesquisa acadêmica. A ABEFil reafirma seu compromisso de seguir mobilizada nas trincheiras institucionais e nas salas de aula de todo o país em defesa de um ensino de Filosofia público, rigoroso, formativo e emancipador.

 


 
Assista abaixo, na íntegra, o vídeo do Professor José Aldo sobre a reunião:
 

Autores

  • José Aldo Camurça de Araújo Neto

    Professor EBTT do Instituto Federal do Sertão pernambucano, Campus Petrolina Zona Rural. Representante do Fórum da Rede Federal dos Professores de Filosofia dos IFs. Professor Permanente de 2 progrmas de Pós-Graduação: Prof-Filo e UECE. Professor Colaborador do Mestrado Profissional em Educação profissional e Tecnológica (ProfETP).

  • Gilberto Miranda Jr

    Professor licenciado em Filosofia e Ciências Sociais. Mestrando em Ensino de Filosofia pela UFABC. Especialização em Antropologia, Psicopedagogia, Processos Didáticos-pedagógicos para Cursos à Distância e Inovação em Educação Mediada por Tecnologias. Experiência em Ensino Fundamental II, Ensino Médio, EJA e Ensino Superior. Atualmente, Mediador pedagógico na FMU e Webmaster na ABEFil.

Você também pode gostar...

1 comentário em “Em 2ª reunião com o CNE, ABEFil alerta para corte de carga horária docente, cobra apoio ao PL 1.466/26 e pauta Filosofia no Fundamental e no ENEM”

  1. Pingback: ABEFil cita estudo do OBSEFIS em reunião com presidente do CNE – OBSEFIS

Deixe um comentário

Contribua com o trabalho da ABEFil

Associe-se
Rolar para cima
Processando solicitação...

Por favor, aguarde o retorno ao seu perfil.