A Associação Brasileira de Ensino de Filosofia (ABEFil) é uma entidade dedicada à defesa do ensino público, da formação crítica cidadã e do direito de filosofar. Nossa razão de existir é a convicção de que uma sociedade só se sustenta como democracia quando garante a todas e a todos o acesso ao pensamento livre, ao questionamento, à argumentação racional e ao diálogo plural. É em nome dessa convicção, e não de qualquer filiação partidária, que não podemos nos furtar de falar sobre o momento que o país atravessa.
Eleições não se decidem apenas entre nomes. Decidem-se entre projetos de país. E, neste momento, estão em disputa dois projetos que não podem ser tratados como equivalentes.
De um lado, um projeto cuja trajetória e cujos sinais apontam para o recrudescimento do sucateamento da escola e das universidades públicas; para privatizações indiscriminadas, que transferem ao interesse privado o patrimônio público construído coletivamente por gerações; para o desamparo das populações mais vulneráveis, tratadas como estorvo e não como sujeitos de direito; para a negligência deliberada com o meio ambiente e a acomodação cúmplice diante do negacionismo climático; para a entrega acrítica da vida pública ao domínio algorítmico das grandes corporações tecnológicas; e para a renúncia à nossa soberania, subordinando o país a interesses estrangeiros. Um projeto, sobretudo, que tem no autoritarismo não um acidente, mas um método, e que já demonstrou, por palavras e por atos, não tolerar a crítica, a divergência e as instituições que criticam o poder.
Do outro lado, um projeto que, como qualquer construção humana e política, pode e deve ser criticado, cobrado e aperfeiçoado em inúmeros aspectos. Não o endossamos por perfeição, porque a perfeição não pertence à política. Reconhecemos nele, porém, algo decisivo: a crítica que fazemos a ele pode continuar sendo feita amanhã, dentro do campo democrático e republicano. Essa possibilidade (a da crítica, a do dissenso, a da luta institucional) é exatamente o que o projeto autoritário promete extinguir.
A filosofia não floresce onde o pensamento é vigiado, onde o livro é suspeito e onde a pergunta incomoda o poder. Ela floresce onde há escola pública forte, ciência respeitada, meio ambiente preservado, dignidade para os mais vulneráveis e liberdade para pensar. Não há neutralidade possível quando uma das alternativas em disputa ameaça as próprias condições de existência daquilo que defendemos e, igualmente, de nossa própria existência.
Posicionar-se, para nós, não é declarar voto em nome de nossas associadas e associados; é afirmar os valores sem os quais nem a nossa categoria, nem o nosso campo de pesquisa e nem a escola pública brasileira terão futuro. Em defesa do ensino público e gratuito, de um projeto soberano de país, de uma distribuição de renda mais justa, do cuidado com a vida e com o planeta, e de uma vida digna dentro da democracia, escolhemos a possibilidade de continuar lutando.
A história nos ensina que há disputas em que se perde e se volta a lutar no dia seguinte, mas também há disputas em que se perde o direito de lutar. Sabemos distinguir uma da outra. E é porque sabemos que fazemos este chamado: que cada professora, cada professor, cada estudante e cada cidadã e cidadão vote com a clareza filosófica de quem sabe o que está em jogo: não um governo, mas o chão sobre o qual qualquer governo pode ser criticado e melhorado.
Seguiremos, como sempre, do lado do pensamento livre. Do lado da escola pública. Do lado da democracia.
Associação Brasileira de Ensino de Filosofia — ABEFil
Outubro de 2026







