Ensino de filosofia hipermidiático: guia do docente

Informações

Autor(es)
Jobim, Andrews; Giraffa, Lucia
Ano de Publicação
2026

Resenha da Curadoria

por Gilberto Miranda Jr.


Contextualização, Gênese e o Problema Central da Obra

A obra Ensino de filosofia hipermidiático: guia do docente, concebida por Andrews Jobim e Lucia Giraffa (2024), configura-se como uma das iniciativas mais consistentes, originais e generosas dedicadas à prática pedagógica da filosofia na Educação Básica brasileira. Fruto das pesquisas de doutorado do autor desenvolvidas no âmbito do Grupo ARGOS (Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Educação Digital da PUCRS/CNPq), o livro dá materialidade e desdobramento aplicado ao percurso investigativo inaugurado na obra seminal da mesma autoria: Do ensino de filosofia para o ensino de filosofi@: tessituras possíveis e necessárias (Jobim; Giraffa, 2022), cujos eixos teóricos foram igualmente partilhados e amadurecidos na literatura acadêmica da área (Jobim; Giraffa, 2025).

A problemática motriz formulada pelos autores parte de um diagnóstico lúcido e desafiador: como integrar as tecnologias digitais ao ensino de filosofia a partir de uma abordagem expressamente não instrumental? Diante da polarização histórica entre o deslumbramento acrítico com as novidades informáticas e a recusa tecnofóbica de matriz conservadora, os autores buscam desatar o nó que há séculos amarra a aula de filosofia à solidão da leitura linear e à transmissão enciclopédica da história dos sistemas. Ao reconhecerem que habitamos simultaneamente a concretude física do mundo vivido e a fluidez imaterial do ciberespaço, Jobim e Giraffa (2024) propõem uma didática que assume a hipermídia não como adorno audiovisual ou instrumento de mera instrução, mas como linguagem plural capaz de potencializar o pensamento e renovar a experiência da docência no “chão da escola”.

Arquitetura Epistemológica: Os Cinco Princípios Formativos

Para alicerçar essa travessia pedagógica sem resvalar no pragmatismo apressado, a obra ancora-se no conceito de técnica de Álvaro Vieira Pinto (2005), que a concebe como mediação existencial intrínseca à produção do humano, e na definição deleuzo-guattariana da filosofia como arte de criar conceitos (Deleuze; Guattari, 1992), articulada ao contexto do ensino médio por Silvio Gallo (2012). O espaço da aula é, assim, reinventado como uma ativa oficina de conceitos, estruturada sobre cinco princípios de design didático inter-relacionados:

  1. Experiência dos problemas e criação conceitual: desloca o foco da memorização passiva de autores e correntes para o enfrentamento de inquietações contemporâneas, estimulando os estudantes a operarem como sujeitos epistêmicos que formulam hipóteses e concebem seus próprios conceitos por meio de linguagens hipertextuais e multimidiáticas.
  2. Deslocamento da zona de conforto: convida tanto o professor quanto os alunos a desestabilizarem hábitos rotineiros e certezas cristalizadas, provocando o estranhamento necessário para que o pensamento filosófico ganhe fôlego diante da dispersão cotidiana.
  3. Tempo e tecnologia: problematiza a aceleração técnica e a pressa produtivista, defendendo a preservação do tempo dilatado da reflexão, da escuta e da maturação conceitual. Ao mesmo tempo, acolhe com sensibilidade ética e pedagógica as profundas assimetrias materiais de infraestrutura e conectividade que ainda marcam o cenário das escolas públicas do país.
  4. Processualidade e tensionamento: núcleo pedagógico de grande vigor reflexivo do Guia, este princípio inspira-se abertamente na tese da igualdade das inteligências formulada por Jacques Rancière (2002) em O mestre ignorante. O docente renuncia à posição de “mestre explicador” para assumir o papel de intercessor e provocador dialógico, encarregado de acompanhar os processos de aprendizagem e de tensionar continuamente as respostas fáceis dos estudantes, exigindo rigor argumentativo na manipulação dos saberes e na própria linguagem midiática empregada.
  5. Liberdade: fundamenta-se na ética da potência de Bento de Espinosa e na abertura inventiva às linhas de fuga e ao devir (Deleuze, 2002), entendendo a autonomia discente como o objetivo último de qualquer processo pedagógico que almeje a emancipação.

Práxis no Chão da Escola: Estruturas Didáticas, Curadoria e Horizontes de Problematização

Distanciando-se de compêndios meramente normativos, o Guia entrega ao professor um repertório metodológico rico, flexível e imediatamente mobilizável. A estrutura de uma aula hipermidiática é desdobrada em momentos dinâmicos: sensibilização inicial, navegação exploratória guiada, criação hipermidiática autoral, socialização com tensionamento coletivo e avaliação processual mediada por rubricas detalhadas. Essa dinâmica ganha vida por meio de três propostas práticas de aplicação:

  • Exemplo 1 — Abordagem hipermidiática de problemas filosóficos: roteiro em que os estudantes investigam questões contemporâneas em fontes digitais plurais e sintetizam seus achados por meio de podcasts, infográficos ou ensaios visuais.
  • Exemplo 2 — Stories Filosóficos: sequência inovadora que se apropria do formato narrativo dos stories das redes sociais em cinco atos concatenados (contexto, conceito central, evidências contemporâneas, síntese dialógica e problematização aberta).
  • Exemplo 3 — Filosofia no Sway: plano orientado à autoria coletiva de narrativas hipertextuais no Microsoft Sway, integrando textos reflexivos, dados biográficos, vídeos e conexões interdisciplinares.

Complementando esse percurso, o livro oferece ainda um cuidadoso guia de ferramentas digitais categorizadas (para organização de ideias, escrita colaborativa, mapas conceituais e produção audiovisual), além de uma expressiva curadoria temática dedicada à Inteligência Artificial. Essa seção reúne sugestões de filmes e séries de ficção científica propícios ao debate ético-metafísico e mapeia as principais plataformas contemporâneas de IA generativa (modelos de linguagem, sintetizadores de imagem, voz e vídeo).

Ao convocar os estudantes a transitarem da condição de consumidores passivos de conteúdo para a de criadores de artefatos conceituais em ambientes hipermidiáticos, a obra cumpre com maestria sua vocação de enriquecer a prática docente. Cabe notar, contudo, que o livro não problematiza diretamente as estruturas de poder, a opacidade algorítmica, as políticas de extração de dados e os modelos de negócios que regem as grandes plataformas comerciais sugeridas. Não obstante, é exatamente aí que reside a fecundidade de sua proposta: por meio do princípio do tensionamento, tão bem formulado pelos autores, esse desdobramento mais crítico pode e deve ser ativamente buscado pelos professores que farão uso da obra. Ao acolherem as ricas orientações didáticas do Guia, cabe aos docentes estender a provocação ranceriana e dialógica para além do conteúdo temático e da linguagem estética, convidando os estudantes a interrogarem também a própria materialidade sociotécnica das ferramentas que utilizam. Dessa forma, a produção hipermidiática não apenas celebra o protagonismo discente na criação de conceitos, mas abre caminho para que a comunidade escolar desnaturalize a arquitetura das grandes plataformas, forjando uma postura de esclarecimento e autonomia indispensável à cidadania contemporânea.

Relevância para o Acervo da ABEFil e Formação de Professores

Distribuído em acesso livre e gratuito (open access), Ensino de filosofia hipermidiático: guia do docente firma-se como um recurso didático de excepcional valor formativo para a comunidade de educadores de todo o Brasil. Trata-se de uma leitura altamente recomendada para estudantes de Licenciatura em Filosofia, formadores de professores e pesquisadores do Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO). A ABEFil congratula-se em incorporar esta obra, bem como o livro teórico que a precedeu, ao seu Acervo permanente, reconhecendo nela um testemunho corajoso, generoso e metodologicamente rigoroso em favor de um filosofar vivo, inclusivo e sintonizado com o nosso tempo.


Referências Bibliográficas

DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. Tradução de Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. São Paulo: Escuta, 2002. 160 p.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. 288 p.

GALLO, Silvio. Metodologia do ensino de filosofia: uma didática para o ensino médio. In: GALLO, Silvio; CORNELLI, Gabriele; DANELON, Márcio (org.). Filosofia do ensino de filosofia. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 115-138.

JOBIM, Andrews; GIRAFFA, Lucia. Ensino de filosofia hipermidiático: guia do docente. Porto Alegre: Triálogo, 2024. 47 p. ISBN 978-65-83349-32-3. DOI: https://doi.org/10.70513/ensino-filosofia-hipermidiatico. Disponível em: https://editora.vecher.com.br/index.php/vel/pt_BR/catalog/book/83. Acesso em: 6 out. 2026.

JOBIM, Andrews Dubois; GIRAFFA, Lucia. Do ensino de filosofia para o ensino de filosofi@: tessituras possíveis e necessárias. São Paulo: Vecher EduCom, 2022. 80 p. ISBN 978-65-84591-15-8. DOI: https://doi.org/10.47585/ensinodefilosofia. Disponível em: https://editora.vecher.com.br/index.php/vel/pt_BR/catalog/book/28. Acesso em: 6 out. 2026.

JOBIM, Andrews Dubois; GIRAFFA, Lucia Maria Martins. Revisitando o ensino de filosofia hipermidiático: princípios para a integração tecnológica. Revista FAEEBA: Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 34, n. 78, p. 1-13, 2025.

PINTO, Álvaro Vieira. O conceito de tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. v. 1 e 2.

RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Tradução de Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. 192 p.

Referência e Conteúdo

Referência Completa
JOBIM, Andrews; GIRAFFA, Lucia. Ensino de filosofia hipermidiático: guia do docente. Porto Alegre: Triálogo, 2024. 47 p. ISBN 978-65-83349-32-3. DOI: https://doi.org/10.70513/ensino-filosofia-hipermidiatico. Disponível em: https://editora.vecher.com.br/index.php/vel/pt_BR/catalog/book/83.
Resumo
Guia pedagógico produzido a partir de pesquisa de doutorado desenvolvida no âmbito do Grupo ARGOS (PUCRS/CNPq). A obra fundamenta-se na compreensão de que a pesquisa acadêmica deve superar a produção teórica abstrata para oferecer subsídios concretos que apoiem a prática docente e promovam a reflexão crítica no cotidiano do chão da escola da Educação Básica. Inspirado na dissertação de mestrado de Andrews Jobim e ampliado na pesquisa de doutorado com Lucia Giraffa, o material estabelece uma ponte entre universidade e escola, com o duplo objetivo de fornecer apoio prático ao planejamento didático e convidar o docente a refletir criticamente sobre o uso das tecnologias digitais, superando perspectivas puramente instrumentais em direção a uma integração significativa, consciente e criativa.
ensino-filosofico-hipermidiatico_capa
imagem_arquivo
ensino-filosofico-hipermidiatico_capa
imagem_arquivo
Rolar para cima
Processando solicitação...

Por favor, aguarde o retorno ao seu perfil.