O ataque estratégico do neoliberalismo à educação e as ameaças ao ensino de filosofia
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RESENHA
por Gilberto Miranda Jr.
1. Contextualização e Percurso da Obra
Publicado no prestigioso periódico Argumentos – Revista de Filosofia (Universidade Federal do Ceará), no âmbito do Dossiê Ensino de filosofia e epistemologias feministas: práticas de insurgência intelectual, o artigo O ataque estratégico do neoliberalismo à educação e as ameaças ao ensino de filosofia (Silva, 2025) constitui uma contundente e necessária intervenção teórica e política. De autoria da Profa. Dra. Elivanda de Oliveira Silva (Instituto Federal do Piauí – IFPI), pesquisadora vinculada à Rede de Mulheres Filósofas da América Latina e especialista no pensamento de Hannah Arendt, o trabalho examina com rigor as raízes estruturais da ofensiva neoliberal sobre o sistema educacional brasileiro e diagnostica a deliberada tentativa de asfixia da disciplina de Filosofia na Educação Básica.
2. Fundamentos Conceituais: A Racionalidade Neoliberal e a Mercantilização Escolar
Ancorando-se na fecunda linhagem crítica de Pierre Dardot e Christian Laval (2016) sobre a “nova razão do mundo” e na clássica advertência de Laval (2019) de que a escola não deve ser modelada como uma empresa, a autora demonstra como o neoliberalismo opera muito além de um conjunto de medidas econômicas: trata-se de uma racionalidade global que coloniza as subjetividades e redefine o próprio sentido da formação humana. Sob essa ótica mercantil, a educação é degradada à condição de mero treinamento de competências adaptativas para o mercado de trabalho, transformando o estudante em “capital humano” e o saber em mercadoria. Apoiando-se na análise das reformas curriculares recentes e da Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018), Silva (2025) evidencia que o esvaziamento da filosofia não é um subproduto acidental de falhas de gestão, mas um ataque estratégico e consciente: a disciplina torna-se um alvo prioritário precisamente porque sua vocação crítica e questionadora desestabiliza a reprodução cega da ordem hegemônica.
3. Práxis no Chão da Escola: Insurgência Democrática e o Direito à Crítica
Em contraposição à lógica gerencialista e utilitarista, o artigo articula o conceito arendtiano de ação e mundo comum (Arendt, 2005; 2010) à concepção do ensino de filosofia como problema filosófico de Alejandro Cerletti (2009). No cotidiano do “chão da escola”, a aula de filosofia é afirmada como uma trincheira de resistência democrática e pluralidade ético-política. Longe de se conformar à pedagogia das habilidades operacionais e da submissão produtivista, o filosofar na escola pública é defendido como a experiência viva em que os jovens exercitam a dúvida metódica, confrontam as desigualdades e constroem projetos coletivos de emancipação. A docência em filosofia, nessa perspectiva de insurgência intelectual, assume o compromisso inegociável de acolher as novas gerações e fornecer-lhes as ferramentas conceituais para que possam interrogar o presente e reinventar o futuro.
4. Relevância para o Acervo da ABEFil e Formação Docente
Eleito como Destaque da Semana no #AcervoABEFil, o artigo de Elivanda de Oliveira Silva consolida-se como leitura obrigatória para pesquisadores do campo, estudantes de Licenciatura e professores do Ensino Médio e do Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO). A obra fornece subsídios conceituais sólidos para desmistificar os discursos privatistas e defender a permanência obrigatória, autônoma e qualificada da Filosofia no currículo escolar, reafirmando que não há democracia sem o direito pleno e irrestrito ao pensamento crítico.
Referências Bibliográficas
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. 438 p.
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005. 352 p.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base – Ensino Médio. Brasília: MEC, 2018.
CERLETTI, Alejandro. O ensino de filosofia como problema filosófico. Tradução de Ingrid Müller Xavier. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. 112 p.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016. 416 p.
LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2019. 304 p.
SILVA, Elivanda de Oliveira. O ataque estratégico do neoliberalismo à educação e as ameaças ao ensino de filosofia. Argumentos – Revista de Filosofia, Fortaleza, v. 17, n. 2, p. 49-57, 2025. DOI: https://doi.org/10.36517/arf.v17iespecial2.96377. Disponível em: https://www.periodicos.ufc.br/argumentos/article/view/96377. Acesso em: 13 out. 2026.
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